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Deputados admitem ter usado partido novato como ponte para outras legendas


31 de março de 2016 220 visitas

Partido da Mulher Brasileira atraiu parlamentares que queriam trocar de agremiação sem perder o mandato, mas a aprovação da janela partidária afastou esse risco e esvaziou a legenda

A derrocada do Partido da Mulher Brasileira (PMB) diante da janela partidária, encerrada na semana passada, foi tão rápida quanto a ascenção da legenda, que chegou a ser a nona maior na Câmara dos Deputados – apesar de seus meros seis meses de existência.

E muito do êxodo peemebista se deve ao fato de que boa parte daqueles que se filiaram à nova legenda não pretendiam realmente permanecer por lá, segundo admitiram alguns parlamentares à reportagem do iG.

Quando o PMB foi registrado junto à Justiça Eleitoral, em setembro passado, a proposta que criava a janela para a troca de partidos ainda não havia sido aprovada pelo Senado. Desse modo, a única alternativa para mudar de legenda sem correr o risco de perder o mandato – que poderia ficar com o partido – era se filiar a agremiações recém-criadas.

Foi o expediente adotado pelo deputado Ricardo Teobaldo (PE), recém-chegado ao Partido Trabalhista Nacional. Assim como ele, outros 18 parlamentares que haviam se filiado ao PMB no final do ano passado deixaram a legenda durante a janela partidária, que foi aprovada pelos senadores em dezembro.

“Nós tínhamos dúvidas sobre se a janela partidária seria aprovada, então o PMB foi usado como uma passagem para outros partidos. O meu objetivo sempre foi ir para o PTN, então o PMB foi apenas o caminho que eu encontrei para fazer isso”, admite o deputado Teobaldo, que irá assumir a presidência do diretório pernambucano do PTN.

Eleito pelo PT em 2014, o deputado Toninho Wandscheer (PR) reconhece que começou a conversar com o PROS, sua atual legenda, antes mesmo de se filiar ao PMB, no qual ficou por apenas quatro meses.

“Quando fui para o Partido da Mulher, ainda não existia a janela partidária e eu já tinha decidido sair do PT porque a minha base é evangélica e eu tinha dificuldades com isso por causa dos posicionamentos do partido”, afirma o parlamentar. “A única oportunidade para sair do PT sem perder o mandato era pelo PMB. Mas eu já tinha sinalizado que possivelmente iria para o PROS.”

“Sacanagem com o PMB”
O fenômeno PMB, que em pouquíssimo tempo atraiu 22 parlamentares para seus quadros, é apontado como a principal razão para o Senado Federal ter votado a Proposta de Emenda Constitucional que criou a janela partidária.

Na sessão que definiu a aprovação da proposta, os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e Antonio Carlos Valadares (PSB-SE) chegaram a citar o caso do partido no Plenário. O presidente do Senado considerou que o uso de novas agremiações para pular de uma legenda para outra seria “uma deformação do processo partidário brasileiro”.”Já são 20 deputados inscritos no Partido da Mulher, sendo que apenas duas são mulheres. Vê-se que essa foi uma manobra exclusivamente para mudar de partido. O deputado leva consigo o Fundo Partidário e dá prejuízo àqueles partidos que se organizaram ao longo de tantos e tantos anos”, afirmou Valadares na ocasião.

Para o deputado Valtenir Pereira (MS), ex-PROS e ex-PMB, que agora se juntou à bancada do PMDB na Câmara, a aprovação da PEC no Senado foi um gesto “para sacanear” o Partido da Mulher Brasileira.

“Eu consultei líderes no Senado para abrir a janela, mas isso só interessava aos parlamentares da Câmara. O Senado sentou em cima da reforma partidária e a única alternativa que eu tinha para sair do PROS sem problemas era ir para o PMB. Como o partido foi de dez deputados para 20 em uma semana, acendeu a luz vermelha dos senadores”, comenta Pereira.

Diferentemente do que ocorre quando um parlamentar deixa a legenda pela qual foi eleito rumo a um partido recém-criado, na janela partidária o deputado não leva para a nova agremiação uma parcela do Fundo Partidário ou tempo de rádio e televisão.

Os deputados que deixaram o Partido da Mulher Brasileira durante a janela partidária encontraram abrigo em dez agremiações diferentes – entre elas legendas da base aliada do governo, como o PTdoB, e opositoras ferrenhas, como o DEM. Ao todo, houve 86 trocas de partido na Câmara dos Deputados durante os 30 dias da janela.

Procurada pela reportagem, a presidente nacional do PMB, Suêd Haidar, não foi localizada para comentar o assunto.