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COLUNA: EFEITO BORBOLETA


25 de outubro de 2016 1.736 visitas

ETERNAMENTE… PROFESSOR!

 

Vou abrir um parêntese nos meus textos críticos e áridos sobre a Educação, para republicar um, cheio de nostalgia. Pedir licença ao colunista ferrenho, questionador e deixar entrar também, o professor em sua essência. Professor que teve muitas desilusões, mas também muitas alegrias e que foi exemplo de profissional para muitos alunos, colegas de profissão e amigos. Um texto como esse ainda cabe, mesmo depois de meses de greve reprimida, de salários atrasados, de IDEB baixíssimo, de fracasso no ENEM, de ocupações de Escolas e Universidades por alunos, de MP da Reforma do Ensino Médio, de PL Escola Sem Partido, de PEC 241 e outras investidas sobre a Educação, sem contar as atrocidades ditas por políticos a respeito de professores e do próprio processo educacional brasileiro… Cabe sim, um texto como esse.

 

Não são raras as vezes que me pego refletido sobre os motivos que me fizeram ser professor. Carreira árdua, de responsabilidade imensa e constante desequilíbrio.

Caminhar na corda-bamba, sem rede de proteção, ou no fio da navalha, afiada e cortante, é a constante realidade do professor. Em todo momento somos colocados à prova. Testados nas nossas insondáveis impressões, decisões, aptidões, motivações, ou sei lá, anseios e interesses.

A corda-bamba e o fio da navalha se tornam presentes em vários aspectos. Eles revelam basicamente, que a carreira de um professor pode pender, de um lado para o abismo, de outro para a satisfação.

O primeiro aspecto a ser levado em consideração, na minha perspectiva, é a reminiscência sobre a relação aluno-professor. Meus sentidos são aguçados quando retorno no tempo e me encontro comigo mesmo, sentado dentro de uma sala de aula. Minha primeira lembrança é olfativa, afinal escola tem cheiro de escola. Cheiro de merenda sendo preparada, de essência de pinho no banheiro, de cera inglesa no chão das salas de aula. Depois a lembrança é auditiva. O som da sineta, do burburinho dos alunos correndo pelo pátio, das vozes dos professores, algumas melodiosas, outras estridentes ou mesmo imperativas. O tátil, se expressa no correr do lápis sobre o papel em branco. A difícil, porém desejada, troca do lápis preto pela caneta esferográfica, e claro, a memória visual. A nuca do colega sentado à frente, o quadro coberto de anotações para serem copiadas. Livros, cadernos, primeiro encapados com plástico xadrez ou de bolinhas e depois transparente, esticadinho e preso por durex. O olhar do professor, algumas vezes de bronca, outras de carinho. A troca de olhares com a paquera na hora do recreio. Nossa! Muitas lembranças…

Quando escolhi ser professor, as posições se inverteram. Hoje, recebo o olhar dos meus alunos. Sou eu encarando a avaliação que fiz no passado. Sou testado diariamente por eles e por mim mesmo. Ser professor num é tarefa fácil. Deparar-me sozinho, frente a um grupo de indivíduos que me experimentam, trocam energia comigo, me preservam ou me expõem, podem criar situações de constantes dúvidas. Terá valido à pena? Nessas horas, confronto as dificuldades com o orgulho pessoal de contribuir com a formação de diversos profissionais competentes e de cidadãos conscientes. Com a gratidão de muitos desses profissionais e cidadãos, que reverenciam meu trabalho e me olham com respeito, carinho e amizade. Conquistei amigos sinceros ao longo da minha trajetória profissional. Acredito ter feito a escolha certa.

Mas a corda e a navalha se apresentam de novo. Neste momento, sinto amargura e quero desistir. É o momento de encarar o descaso, a falta de respeito, a desvalorização.

Por parte de quem? Por falta de quê?

Perdemos o respeito da sociedade? Se perdemos, foi por quê? Deixamos de trabalhar com responsabilidade? Distanciamos de nosso ideal? Perdemos o encanto?

Acredito que sim. Não todos, em todos os momentos. Essa é a realidade incontestável que nos assola.

Os últimos acontecimentos envolvendo professores servem de recordação para muitos outros episódios de luta por valorização, enfrentados por profissionais do magistério.

Retratos da violência não foram poucos. Eles se perpetuam. Somos preteridos nos investimentos e sucateados nos salários.

Educação pode ser missão, mas é antes de tudo, profissão. Profissão que forma cidadão e outros profissionais para a Nação. Usei a rima para fortalecer a afirmação e produzir memorização da essência da nossa função.

Não nos esqueçamos disso. Essas palavras devem ser proferidas como mantra entre os profissionais da Educação, para não perdermos o foco. O respeito precisa estar em nós para se refletir na sociedade. Desejemos força e garra para aqueles que estão em campo, lutando por respeito e dignidade para a classe.

Devemos perseguir os ideais da Educação Inclusiva e para Todos, mesmo que o mar bravio da incompreensão e a dureza dos que representam o sistema nos emperre, Não percamos o encanto. Quanto à sociedade, não deixemos que o senso comum, tão conveniente para o poder, nos faça acreditar que ela não nos respeita e valoriza.

Como professor, em toda a plenitude de minha essência, experimentei o respeito, o apoio e a admiração da minha comunidade. Meu respeito também a ela, que não me deixou sucumbir.

Num dia 15 de outubro, dia do professor, recebi um recado de uma ex-aluna, através do facebook, que dizia: “Um professor afeta a eternidade; é impossível dizer até onde vai sua influência. Obrigada por acrescentar conhecimento ao meu amor pela História. Parabéns!” – Luana Delduque. A todos os meus alunos, representados na figura de Luana e suas palavras de incentivo, meu carinho.

Aos meus professores, meu eterno agradecimento. Sintam-se representados na figura de quatro grandes mulheres: minha mãe, Marlene Alves e minhas tias Lúcia, Vera e Vânia Alves, exemplos de profissionais da Educação e pessoas influentes na minha vida.

Parabéns caros colegas!